“Bendito somos, oh Baco! Pela dádiva de poder provar tão raro caldo, nessa rica vertical ‘barcavelhense’, que há de fazer vibrar todos os nossos humanos sentidos. Amém!”
Gilvan Passos
Não se pode iniciar uma degustação de tamanha envergadura e importância histórica, onde o sagrado, o místico e o profano permeiam a atmosfera do ambiente, sem uma oração que nos sirva de agradecimento. Afinal, Barca Velha não é vinho, é Barca Velha, um misto de história, lenda, sonho de consumo, referência enológica internacional, além de um grande vinho. Mas Barca Velha é, sobretudo, um símbolo de Portugal, como o é o bacalhau para gastronomia, Camões para a literatura e Cabral para a história lusitana. Foram 06 safras adquiridas da Garrafeira Nacional, em Lisboa, pelos amigos: Elmano Marques, Gustavo Rocha e Armindo Albuquerque, sob a orientação criteriosa do Jaime, excepcional cavista português e proprietário da garrafeira. A princípio cabe dizer que Barca Velha não é um vinho qualquer, mas um vinho lendário,
produzido desde 1952, apenas em safras excepcionais, criado por Fernando Nicolau de Almeida, engenhoso enólogo da Casa Ferreirinha, hoje pertencente ao grupo Sogrape, numa época em que o conhecimento e a tecnologia vitivinícola disponíveis, eram de todo, criativa e manual. O Barca Velha foi então o primeiro grande vinho de mesa do Douro, criado à semelhança do Porto Vintage, numa época em que, mesmo o Porto, andava sem crédito. Nascido na Quinta do Vale do Meão, propriedade adquirida desde 1887 por Dona Antonia Adelaide Ferreira, a Ferreirinha, mulher, importantíssima na história do vinho do Douro, a partir de 1999 o Barca Velha passou a ser produzido com uvas procedentes apenas da Quinta da Leda, onde a topografia mais acidentada, o solo xistoso e a menor densidade pluviométrica (300 milímetros de chuva/ano) no Douro Superior, favoreceram a
elaboração de um vinho mais fresco, frutado e elegante. Nossa degustação contemplava as safras: 1966, 1978, 1982, 1991, 1999 e 2000, seis das apenas 17 safras produzidas até a presente data em sete décadas deste grande ícone português. Suas castas: Tinta Roriz, Touriga Nacinal, Touriga Franca e Tinto Cão, fermentadas em inox e maturadas por 12 a 18 meses em barricas bordalesas novas, são na seqüência, lotadas e envasadas para envelhecer em Vila Nova de Gaia, passando por sucessivas provas, que podem durar nalguns casos até 12 anos, para serem atestadas como Barca Velha, sendo o critério de qualificação puramente técnico-sensorial. Se não responder por um “Barca Velha”, o vinho é denominado de Ferreirinha Reserva Especial, 2º vinho da casa, ou não, visto que este também só é editado em anos que o valha. Nossa prova, com seis safras ícones, pode ser considerada histórica e
até única em território brasileiro, visto que contemplava três gerações de enólogos: Fernando Nicolau de Almeida, José Mª Soares Franco seu sucessor e o atual responsável Luis Sottomayor (foto). A degustação ocorreu às cegas em taças ISO, sendo os três vinhos mais jovens decantados previamente (uma hora antes do serviço), e os três mais velhos decantados no momento da prova para prevenir da oxidação. Participaram do evento 14 confrades que elegeram por unanimidade como vinho da tarde o Barca Velha 1982, ficando em segundo plano o 2000. Minhas impressões tomaram como base o estilo dos vinhos. Os três primeiros servidos: 2000, 1999 e 1991, sobretudo o mais jovem, mostraram mais força, austeridade, fruta, suculência e persistência gusto-olfativa. Já os três últimos tinham uma abordagem mais voltada para a delicadeza, complexidade e sofisticação, com menos persistência gustativa. Surpreendeu-me a safra de 1966 – a mais antiga – que se mostrou mais intensa na cor, aroma e sabor que a de 1978, o vinho menos cotado entre os confrades, Numa prova dessa importância, onde fui convidado a apresentar e servir os vinhos, são muitas as lições aprendidas, dentre as quais destaco a surpreendente longevidade desse ícone, que aos 46 anos de vida (a safra mais antiga), não mostravam sinais comprometedores de oxidação. A degustação ocorreu na Grand Cru Natal, na tarde do último sábado (05/04), depois do que saboreamos um almoço temático (português) com entrada, prato e sobremesa regados a vinhos da terrinha: Alvarinho Soalheiro 2011, Quinta da Romeira 2007 e Chryseia 2006, seguido de um Porto Portal Vintage 2003, entre vários outros rótulos que entremearam os pratos totalizando 15 garrafas numa tarde prá lá de gourmet e memorável.